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Carl Gustav Jung em sua residência

Desde Platão que se teoriza a existência de “moldes” de ideias, histórias, padrões de comportamento, algo como matrizes imateriais e compartilhadas por toda a humanidade.

Carl Gustav Jung retoma e aprofunda em sua conceituação de Inconsciente Coletivo.

À semelhança da hereditariedade física, que pré-existe ao nascimento e dá forma ao corpo e molda funções biológicas comuns e fundamentais a cada espécie, igualmente existe uma ancestralidade de ideias, sentimentos, conceitos, comportamentos comuns a toda a humanidade, independente de localização temporal ou geográfica.

Estes são os Arquétipos, cujas imagens povoam os sonhos, as lendas, mitologias, artes, literatura, religiões e rituais das mais variadas culturas.

Na linha teórica junguiana, o inconsciente não é apenas individual, sendo em sua maior parte, COLETIVO, compartilhado por todos os indivíduos.

Arquétipos representam um conceito tão difícil de explicar como o Tao, ou Deus, pois são padrões ou motivos universais que emanam do Inconsciente Coletivo (ou, como preferia Jung, Psique Objetiva).

Tais motivos foram incorporados por experiências reiteradas, coletivas e significativas da humanidade. Irrepresentáveis em si mesmos, constatamos seus efeitos quando se manifestam na consciência como imagens e idéias arquetípicas, ou seja, como Símbolos, melhor expressão possível para algo essencialmente desconhecido.

Arquétipo e Símbolo são opostos complementares.

O primeiro representa o passado, o herdado, o coletivo, aquilo que é a Verdadeira Realidade, a qual não pode ser contatada diretamente pelo nosso racional, mas apenas indiretamente, pelos seus efeitos.

O segundo constitui a cultura, o adquirido, o individual e se manifesta na realidade relativa de nosso conhecimento e consciência.

Assim sendo, os arquétipos representam a dinâmica de nosso inconsciente e os símbolos são as referências de nossa consciência.

Destes se formam os COMPLEXOS: grupos emocionalmente carregados de imagens ou idéias comandados por uma imagem arquetípica.

A estes, Carl Gustav Jung atribuiu a formação de parte da estrutura psíquica funcional.

Instâncias Psíquicas

Outro conceito ampliado na linha junguiana é o das Instâncias Psíquicas, iniciadas com Freud, com Id, Ego e Superego, que estruturam nosso psiquismo, às quais Jung acresceu as teorias do Inconsciente Coletivo, Self, Animus, Anima, Persona, Sombra.

Ego – nosso “eu” consciente;
Sombra – aquilo que somos, mas ignoramos;
Persona – aquilo que somos em função dos outros;
Anima – nossa porção feminina;
Animus – nosso lado masculino;

Self – o que somos como aspiração da totalidade.

Inconsciente individual/pessoal – partes de nossa vida emocional, desejos, emoções, memórias que mantemos fora do Ego

Inconsciente Coletivo – habitat dos Arquétipos, que são padrões de comportamento e conhecimento que se expressam nos sonhos, nas artes e são compartilhados por toda a humanidade, podendo afetar nossas ações, manifestando-se na forma de Complexos

A Jornada Heróica

Outros estudiosos, como Joseph Campbell (estudou comparativamente mitos, lendas e religiões das mais variadas culturas) e Christopher Vogler (analisou e comparou milhares de roteiros para cinema, além das grandes obras da literatura), considerando a definição junguiana, também sugerem interpretações a respeito da expressão dos diversos arquétipos em uma narrativa, independente de seu caráter fantástico ou não.

Joseph Campbell e as Faces de Deus
Arte: Henrique Vieira Filho

Para Campbell, os arquétipos fazem parte de todo ser humano, como órgãos de um corpo, fenômenos biológicos.

Você já reparou que uma série de histórias, contos, mitos etc., de tempos e locais diferentes, possuem uma estrutura de narrativa muito parecida?

O mitologista, antropólogo, escritor e professor universitário norte-americano, Joseph Campbell, teve essa percepção e escreveu, assim, o livro “O Heróis de Mil Faces” na década de 1940.

Ao observar uma série de mitos de diferentes culturas, encontrou similaridades que se repetiam.

A esse conceito ele deu o nome de monomito, ou seja, um mito único, que nada mais é que a Jornada Heróica.

Primeiro Ato: O Chamado

Mundo comum – Consciência limitada de um problema

O chamado à aventura – Aumento da consciência

Recusa ao chamado – Relutância à mudança

Encontro com o mentor – Superação da relutância

Segundo Ato: Iniciação

Cruzamento do limiar – Comprometimento com a mudança

Testes, aliados e inimigos – Experimentando a primeira mudança

Aproximação da caverna profunda – Preparação para uma grande mudança

Provação – Tentativa de uma grande mudança

Recompensa – Consequências da tentativa (melhorias e retrocessos)

Terceiro Ato: Retorno

Estrada de volta – Rededicação à mudança

Ressurreição – Tentativa final para uma grande mudança

Retorno com a recompensa – Domínio final do problema

Arquétipos Heróicos

Baseando-se nas obras de Jung e de Campbell, duas estudiosas contemporâneas selecionaram e popularizaram doze facetas que o protagonista da Jornada Heróica pode assumir para si ou compartilhar delas em seus companheiros de aventura.

Os doze arquétipos heróicos são descritos nos livros O Despertar do Herói Interior (Carol S. Pearson) e O Herói e o Fora da Lei (Carol S. Pearson e Margaret Mark), bem como os aprendizados que podemos ter com cada um deles, já que são PROJEÇÕES de características de todos nós, espelhadas e reconhecidas (ou até negadas…) em seus padrões de comportamento, virtudes e fraquezas.

Margaret Mark e Carol S. Pearson
Margaret Mark e Carol S. Pearson

As três etapas da jornada heróica – preparação, jornada, retorno – equivalem exatamente aos estágios do desenvolvimento humano: primeiro desenvolvemos o Ego, depois encontramos a Alma e, finalmente, surge um singular senso de Self.

Os quatro primeiros arquétipos – o Inocente, o Órfão, o Guerreiro e o Prestativo – nos ajudam a nos prepararmos para a jornada.

Com estes quatro guias aprendemos a sobreviver no mundo tal como ele é, a desenvolver a força do Ego e, além disso, a ser cidadãos produtivos e pessoas boas, dotadas de um elevado caráter moral.

O segundo conjunto de quatro arquétipos – o Explorador, o Rebelde, o Amante e o Criativo – nos ajudam durante a própria jornada, quando encontramos as nossas almas e nos tornarmos ”verdadeiros”.

Os quatro últimos arquétipos – o Governante, o Mago, o Sábio e o Bufão – atuam como intermediários na volta ao reino.

Ao fazê-lo, eles nos ajudam a aprender a expressar o nosso verdadeiro Self e a transformar a nossa vida. Eles nos levam a transcender o heroísmo e a alcançar a liberdade e a alegria.

Neste roteiro pré-escrito e registrado no Inconsciente Coletivo, podemos sintetizar em alguns “papéis chaves” em que somos atores: O Inocente, O Órfão, O Guerreiro, O Prestativo, O Explorador, O Amante, O Rebelde, O Criativo, O Mago, O Governante, O Sábio, O Bufão.

Sobre Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é psicoterapeuta, fotógrafo, artista plástico, escritor, jornalista e terapeuta holístico. Nas artes, é autodidata e seu estilo poderia ser classificado como surrealismo figurativo.

Por mais de 25 anos, esteve à frente da organização da Terapia Holística no Brasil, sendo presença constante nos meios de comunicação. Elaborou as normas técnicas e éticas da profissão, além de ser autor de dezenas de livros e centenas de artigos, que são adotados como referência em vários países.

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Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, escritor, jornalista e terapeuta holístico. Nas artes, é autodidata e seu estilo poderia ser classificado como surrealismo figurativo.Por mais de 25 anos, esteve à frente da organização da Terapia Holística no Brasil, sendo presença constante nos meios de comunicação. Elaborou as normas técnicas e éticas da profissão, além de ser autor de dezenas de livros e centenas de artigos, que são adotados como referência em vários países.
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