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Da cópula do Sol com o útero úmido da Terra

Um dos motivos da ruptura entre Reich e Freud foi a militância política de Reich, que acreditava que o capitalismo patriarcal estava comprometido com o sofrimento psíquico das pessoas. 

Útero - Arte: Henrique Vieira Filho

Um dos motivos da ruptura entre Reich e Freud foi a militância política de Reich, que acreditava que o capitalismo patriarcal estava comprometido com o sofrimento psíquico das pessoas. 

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Um dos motivos da ruptura entre Reich e Freud foi a militância política de Reich, que acreditava que o capitalismo patriarcal estava comprometido com o sofrimento psíquico das pessoas. 

Uma transformação individual exigiria uma transformação social. Esta transformação remeteria ao modo de vida de algumas culturas pré-patriarcais, apoiadas em outras instituições sobre o corpo.

     Reich (1977) fez uma declaração significativa: “Freud concordava comigo com relação a princípios. Mas quando se chegou a casos concretos, tais como atacar a atitude compulsiva da família, a organização da família, ele insurgiu-se contra mim (…) ele não aceitava o que a saúde sexual implicava, o ataque a certas instituições que se lhe opunham” (pg.86).

     Do mesmo modo, lembra que “Freud era muito favorável à nova legislação da Rússia, apesar de um pouco hesitante quanto às facilidades de divórcio e aos seus efeitos sobre a família. Era bem claro para mim que ele se sentia constrangido a esse respeito. Ele queria libertar-se do seu próprio casamento. Mas não conseguia (…) Freud era uma mistura curiosa de espírito aberto e de um senhor professor de 1886” (pg.44).

     Surpreendentemente, a Filosofia da Devoração de Oswald de Andrade tem muita afinidade com o pensamento de Reich, embora não haja nenhuma evidência de que Oswald o tenha lido. A aproximar os dois pode ajudar a situar o trabalho reichiano por aqui, entre nossas forças culturais, históricas e utópicas.

     Para Oswald, as forças culturais que nos envolvem correspondem ao futuro para o qual apontam as aspirações da humanidade desde as primeiras utopias que antecederam ao Renascimento.

 Oswald de Andrade (1995) foi bastante influenciado por Freud, repara que “do mau acolhimento dado aos direitos do instinto submetidos que estavam às disposições disciplinares da Moral de Escravos passou-se a uma fase psicanalítica em que se procurou legalizar o homem natural que resistia, por meio das neuroses e estados de ficção, às injunções seculares do socratismo ocidental” (pg.142).

     No entanto, entende que Freud não conseguiu se libertar do patriarcado, embora tenha entendido profundamente o seu psiquismo, “evidentemente, o criador da psicanálise não deu atenção especial à revolução do patriarcado” (pg.144) e, por isso, entendeu a psique patriarcal como uma psique universal, com a qual compreendeu as operações primitivas, como a totêmica.

     Para Oswald, a totemização primitiva carrega uma intuição sábia, entende os conflitos do indivíduo não estão limitados ao drama íntimo e familiar, são entendidos como questões do corpo, da natureza, da comunidade e da cultura. É uma operação que tem um caráter mágico, pois corresponde à “consciência participante”.

     Não entende a instituição totêmica como característica de um desenvolvimento primitivo que naturalmente seria superado, como em Freud (1969), para quem há relação entre “as fases de desenvolvimento da visão humana do universo e as fases do desenvolvimento libidinal do indivíduo. À fase animista corresponderia a narcisista, tanto cronologicamente quanto em seu conteúdo; à fase religiosa corresponderia a fase de escolha de objeto, cuja característica é a ligação da criança com os pais; enquanto que a fase científica encontraria uma contrapartida exata na fase em que o indivíduo alcança a maturidade, renuncia ao princípio do prazer, ajusta-se à realidade e volta-se para o mundo externo em busca do objeto de seus desejos”(pg.113).

        Este paralelo do desenvolvimento histórico com o desenvolvimento individual mostra uma influência do positivismo no pensamento de Freud, característico do ambiente científico do seu tempo, que já não está presente no pensamento de Oswald.

 Esta relação que vem sendo desenvolvida até aqui permite propor que faz parte do posicionamento reichiano apoiar os movimentos de trabalhadores rurais sem terra. Para entender a psique brasileira e favorecer a relação do trabalho clínico com as redes sociais, é importante perceber que “somos a utopia realizada, bem ou mal, em face do utilitarismo mercenário e mecânico do Norte. (…) O que precisamos é nos identificar e consolidar nossos perdidos contornos psíquicos, morais e históricos” (ANDRADE. 1995, pg.166).

     O corpo é comprometido com os processos naturais, culturais e sociais, através de relações dialéticas complexas. O sistema de equilíbrio do qual emerge as ações humanas é organizado em pares de partes e forças antagônicas, com possibilidade de combinações múltiplas e inusitadas, sintetiza continuamente o desequilíbrio provocado por cada contato, movimento e relação.

     A síntese nunca é definitiva, portanto nenhuma ideologia é suficiente, pois, a cada passo, novas exigências emergem. Nosso sistema biomecânico é gerador de utopias, movido para o futuro, o messias vingador que recoloca continuamente as coisas nos eixos. Pode-se compreender Oswald quando diz: “contra a memória fonte de costume. A experiência pessoal renovada” (ANDRADE. 1995 pg.51).  

A magia dos fios do corpo 

     Trata-se de uma utopia que concebe a possibilidade de um sistema social descentralizador, diferente da concepção centralizadora da moral sacerdotal. Lembra mais a concepção mágica ligada à tessitura de fios, bastante arcaica e relacionada com forças femininas.

     É bom lembrar que faz parte da recuperação da percepção mágica o caráter inventivo, criativo e tecnológico da ciência. A ciência como manipuladora de forças, e não como porta-voz de verdades. A percepção mágica da metáfora da trama e dos fios se aproxima muito da concepção de corpo como rede móvel de vetores de força: “os milhares de tensores musculares envolvidos nos movimentos dos músculos funcionam como um tear que tecem as forças do mundo ou forças do corpo” (GAIARSA. 1988 pg.227).  

     A idéia de corpo como trama de forças ligadas à tessitura do mundo ajuda a compreender um sistema que não seja organizado através da hierarquia forte, do movimento persuasivo e exemplar. Heráclito já dizia que “é cansativo servir e obedecer aos mesmos senhores” (fgto.84). Trata-se da consciência da participação, atenta às soluções cooperativas e emergentes, através da comunicação e da alteridade, contra a submissão a uma dominação sacerdotal.

     A trama evoca uma questão espacial, diz respeito à localização: o­nde começa um movimento? Heráclito diz que “assim como a aranha, instalada no centro de sua teia, sente quando uma mosca rompe algum fio da teia e por isso corre rapidamente, quase aflita pelo rompimento do fio, assim alma do homem, ferida alguma parte do corpo, apressadamente acode, quase indignada pela lesão do corpo, ao qual está ligada firme e harmoniosamente” (fgto.67).

     As forças musculares que organizam, sustentam e movem o corpo podem ser entendidas como uma teia feita de vetores de força: “a mais perfeita representação gráfica do termo ‘sentido’ que eu conheço é o vetor. Das imagens concretas, a mais bela é a flecha, da qual deriva o vetor. A mais abstrata representação de ‘sentido’, creio que se liga à sensação de um tensor muscular ou à resultante – virtual, mas atuante – de um conjunto deles. Creio, ademais, que em ausência dessa sensação não nos é dado pensar um significado” (GAIARSA. 1988 pg.43).

     Pode-se imaginar uma teia corpo-cultura tecida por estes vetores de força, uma teia móvel, o­nde o sentido é continuamente mantido e transformado, e cada um de nós sintetiza de algum modo singular estas forças, mobilizando-as.

     As questões aqui levantadas tratam da necessidade de nos percebermos, brasileiros reichianos, a partir da nossa posição original dentro da rede da natureza e da cultura humana. Uma posição que favoreça o desenvolvimento das utopias levantadas por Reich, tão familiares as que Oswald de Andrade identificou entre nós. Sustentam a esperança na superação do capitalismo e da exploração do corpo do outro na direção de uma nova sociedade, mais fraterna e complexa: o matriarcado de Pindorama. 

     Oswald de Andrade (1992) disse (em 1945!) que “a antropofagia ainda balbucia, mas propõe-se a depor no tumulto dramático de hoje. Ela leva às suas conclusões o que há de vivo no existencialismo e no marxismo. De um velho caderno que tem cerca de vinte anos tiro a seguinte: pela primeira vez o homem do equador vai falar!”

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