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Fotografia e grafismos: Henrique Vieira Filho - Modelo: Amanda

Arte, fotografia e a cura da alma como ato político

Cláudia de Sousa Fonseca

Fotografia e grafismos: Henrique Vieira Filho - Modelo: Amanda
Fotografia e grafismos: Henrique Vieira Filho – Modelo: Amanda

Quando escolhi minha profissão, o meu intuito era trabalhar com política, o que me levou a atuar na área de jornalismo de políticas públicas e sociais por mais de 15 anos. E nesse tempo minha visão do que seria política se expandiu, ao perceber que tudo é política. Pois, assim como afirma Michel Foucault, todas as nossas relações sociais são relações de poder.

Porém, diferente do filósofo, vou além da percepção de que a estrutura de poder esteja apenas direcionada a um processo de punição e vigilância. Assim como discordo do fundador da psicologia analítica Carl Jung, quando declara que “onde o amor impera, não há desejo de poder”. Com frequência vejo a palavra PODER ser apropriada de forma pejorativa, impositiva.

Isso é uma crença que precisa ser desconstruída.

Uma coisa é querer controlar, dominar. Outra coisa é aprender a lidar com o poder que exercemos sobre o outro e a aceitar o poder que o outro exerce sobre nós. A meu ver, quem abre mão da própria potência e capacidade de exercer influência, fascínio, inspiração, abre uma brecha para ser domesticado por outras pessoas e instituições. Quem reconhece o próprio poder aprende, inclusive, a lidar melhor com a necessidade de controle.

Assumir a força interior e o quanto é possível movimentar o meio em que vivemos a partir disso, é um ato político. E como artista, terapeuta e fotógrafa, sigo nesta jornada de investigação jornalística em que, reconhecendo o quanto sou, em contato com o mundo ao meu redor, escolho servir a vida facilitando vivências para que outras pessoas também reconheçam a si mesmas. Um processo que em grande parte é realizado a partir da apropriação da arte, que tem o poder catalisador de curar a alma.

A cura pela arte

A manifestação artística é uma ponte entre o consciente e o inconsciente. O artista ali revela suas tristezas, alegrias, amores, toda a projeção de seu sentir e visão de mundo, mesmo que inconsciente, nas obras que produz. O que reverbera nos observadores que com ela se conectam. Muitas vezes somos arrebatadas por um quadro, por uma fotografia, por uma dança e sequer sabemos o porquê. Algo dentro de nós mudou.

O artista atua como um psicopompo, que media manifestações de cura através do seu servir.

Mesmo que essa manifestação, muitas vezes, seja o resultado de uma dor, de um incômodo.

Algo que transborda de forma tão intensa a ponto de, o único a poder ser feito com esse sentir, seja a entrega ao criar. Obras inicialmente entendidas como despretensiosas podem ter um impacto profundo, sem que os observadores sequer compreendam o que acontece. Nem tudo precisa ter sentido, para ser sentido.

A fotografia como processo terapêutico

A fotografia, mais especificamente os retratos, têm um potente potencial de cura e papel político, quando direcionada para um processo em que nos permitimos o auto-acolhimento.

Facilitar uma vivência fotográfica com a proposta de fazer com que a pessoa fotografada se permita amar o próprio corpo como ele é agora, em vez de viver em função da idealização do que ele poderia ser, é curativo, é um ato político.

Facilitar um processo durante uma vivência fotográfica, que conduza uma mulher a expressar o que pensa e sente, em uma sociedade onde por muito pouco somos taxadas de loucas, promíscuas, mandonas, desequilibradas e temos nossa capacidade a todo tempo questionada, é um ato político. Facilitar um processo durante uma vivência fotográfica que conduza um homem a reverberar sua vulnerabilidade, sua sensibilidade, em um meio social onde a percepção de masculinidade está adoecida, é um ato político.

Ter consciência política não fala apenas sobre inteirar-se das atividades realizadas por nossos legisladores, de forma lúcida. Fala sobre ocupar nossos espaços. Não somente fora. Mas dentro de nós.

Quando deixei de me masculinizar para me sentir parte de um meio profissional permeado por homens, que em alguns casos tentaram ser abusivos; quando assumi minha feminilidade, minha sensibilidade, tanto dentro como fora do ambiente de trabalho, pois entendi que o pertencimento a partir da dissociação de quem sou é algo que muito me dói; eu me propus um ato político. Um processo possível para mim, por meio da cura pela arte.

Chegar neste lugar requer um olhar-se com profundidade e amor. Requer um permitir-se ser vista, para que outros possam te ajudar a enxergar em si mesma a beleza que tantas vezes nós temos dificuldade de perceber.

Por isso o registro fotográfico vai muito além de um recorte da realidade. Se nos permitirmos, ele se transforma em um desnudar de alma. Em que temos a oportunidade de nos conectar com aspectos que por tanto tempo escondemos. Seja por medos, por traumas, por crenças que sequer são nossas. 

Compreendendo que aquela imagem registrada, assim como o lugar ocupado internamente no agora, não é estático, mas uma projeção que se transforma. Capaz de despertar diferentes afetos, cada vez em que nos conectamos com ela. O que vemos em um retrato muda, quando mudamos, pois ele não é um mero registro do que foi. 

Mas também a projeção do que se é agora. Parte de um eterno caminhar, em que nos permitimos transformar e ser transformados pela vida.

Por isso, hoje, não uso mais o termo ensaio, mas sim vivência fotográfica. Por entender e sentir que retratos vão muito além da estética. Eles possibilitam uma condução terapêutica para que, a partir da arte, possamos reconhecer o nosso lugar. Para que, a partir desse reconhecimento, possamos nos sentir pertencentes. Pertencentes ao mundo. Pertencentes a nós mesmas.

Amar-se a ponto de honrar quem você tem condições de ser agora, reconhecendo o poder que te habita e se posicionando de acordo com o que você merece, é um ato político. Toda relação é uma relação de poder. Inclusive, o relacionamento que nutrimos com nós mesmas. Permitir-se viver, em vez de apenas seguir existindo, posicionar-se no mundo na permissão da eterna cura da alma, é um ato político.

Sobre a Autora: Cláudia de Sousa Fonseca

Cláudia de Sousa Fonseca é jornalista, terapeuta integrativa, artista plástica, poeta e fotógrafa.www.agenciaamora.com.br

CitationCláudia, de S. F.. (2024). Arte, fotografia e a cura da alma como ato político. Revista TH, XIV(81). https://doi.org/10.5281/zenodo.10488981

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